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Flávio Rocha: o candidato do MBL

O jato executivo Legacy 650 seguia em velocidade de cruzeiro na rota entre Rio de Janeiro e São Paulo. Era um dia ensolarado do começo de março, com céu de nuvens esparsas, quando o avião entrou em zona de turbulência. Em meio à instabilidade, o empresário pernambucano Flávio Gurgel Rocha — dono das lojas Riachuelo, ex-deputado federal, ex-candidato à Presidência em 1994 e o nome favorito do Movimento Brasil Livre para ocupar o Planalto — consultou as horas em seu Patek Philippe Nautilus. Eram 14h30, a turbulência durava segundos, mas parecia perdurar pela eternidade.

A seu lado, o apresentador e publicitário Roberto Justus tentava se concentrar no jornal, como se ignorasse a ansiedade do companheiro de viagem. Em outra poltrona, Edgard Corona, dono da rede de academias Bio Ritmo, comentava a respeito dos possíveis efeitos para o Brasil da elevação da taxa de importação sobre aço e alumínio pelo governo dos Estados Unidos. A continuidade da trepidação obrigou os três a conjecturar, em tom descontraído, quais seriam as manchetes do dia seguinte caso o avião caísse. Depois, com os corpos ainda sacolejando, passaram a falar de Deus.

Justus declarou-se ateu. Flávio Rocha ajeitou os óculos Porsche, tirou os olhos de seu iPhone e repreendeu o amigo: “Não diga isso enquanto voamos. Deixe para depois que o avião pousar”. O outro se desculpou: “Estou brincando. O avião está mexendo muito”.

O publicitário justificou o materialismo por alinhar-se com a teoria científica mais aceita para a origem do Universo. O bigue-bangue atesta que uma grande explosão deu origem aos planetas, estrelas e galáxias e forjou as condições para a existência de vida na Terra. Rocha, que é evangélico, sustenta que o poder de Deus se manifestou na criação a partir do nada. A conversa seguiu sobre como as civilizações egípcia, judaica e africana se relacionavam com a metafísica. Surgiu a questão de como a África pode ser um continente tão pobre e desassistido, se Deus é bom, todo-poderoso e misericordioso. “Eles rezam para os deuses errados”, opinou Rocha. A turbulência cessou.

Não faz muito tempo, Flávio Rocha começou a viajar pelo país numa caravana improvisada. A pequenas multidões de norte a sul do país, ele discursa ao microfone, tira fotos e prega a valorização da família, dos bons costumes, o combate ao politicamente correto (que ele entende como o patrulhamento da esquerda em temas como machismo, por exemplo), o liberalismo, o empreendedorismo, a livre-iniciativa, a desregulação e o Estado menos intrusivo. O combo ficou conhecido como neoliberalismo regressivo, quando se é superliberal na economia, mas ultraconservador nos costumes. Temas que amealham adeptos da nova direita, como os jovens do Movimento Brasil Livre.

 “Tenho orgulho de afirmar: Flávio Rocha, único presidenciável que conjuga o combate ao politicamente correto com responsabilidade fiscal e propostas sérias para a segurança pública, é o candidato do Movimento Brasil Livre à Presidência da República”, escreveu Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL, em artigo no jornal Folha de S.Paulo nesta semana. “Para se tornar viável, ele precisa aparecer nas pesquisas. Começando a aparecer, os partidos começam a se interessar. E aí ele entra no debate presidenciável mesmo”, disse Kataguiri a ÉPOCA.

O MBL é um grupo que, entre outras bandeiras, diz que o imposto é um roubo, que os cidadãos têm direito a andar armados, que o nu na arte é imoral e que apoiou a mentira de que a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada há mais de uma semana, era ligada ao tráfico de drogas.

“São os valores morais que despertam paixões. Ninguém fica se matando para discutir a taxa de juros. A população em si não tem discussões apaixonadas sobre isso. Agora, sobre aborto, feminismo e cotas, as pessoas têm uma opinião. É algo que mobiliza bastante e faz com que a divergência política aflore”, afirmou Kataguiri a ÉPOCA.

Órfão de liderança desde o rompimento com o prefeito de São Paulo, o tucano João Doria, o MBL quer ver o dono das Lojas Riachuelo no Palácio do Planalto. “A manifestação pública do MBL, sem sombra de dúvida, me coloca próximo de assumir uma candidatura”, disse-me Rocha no mesmo dia. “Seria um egoísmo muito grande não levar isso em consideração.”

No universo da direita em ascensão, Flávio Rocha está para o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) — que lidera as pesquisas de intenção de voto para a Presidência em cenários sem Lula como candidato — assim como a camiseta polo da Riachuelo está para a camiseta polo da Renner. Há uma diferença aqui (grau de liberalismo), outra ali (fervor religioso), outra acolá: Rocha não defende torturadores nem ofende mulheres. Mas ambos querem leis mais duras contra o crime, combatem a esquerda e temem que o mundo se torne um antro de pouca-vergonha.

REVISTA ÉPOCA

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